Encontro de Guardiães
O Capítulo Local
Encontro dos Guardiães e Coordenadores de Fraternidades
Campo Grande – MS, 09-10 de maio de 2005
O Capítulo Local desempenha papel fundamental na dinâmica de animação e fomentação da vida fraterna. Sem ele, uma fraternidade corre o risco de perder sua identidade e, por conseguinte, sua dimensão franciscana, tornando-se um simples grupo de pessoas que desempenham funções práticas de manutenção, sem nenhum espírito nem vida.
Com a intenção de enfocar este tema e promover um aprofundamento frutuoso para as diversas fraternidades da Custódia das Sete Alegrias, a equipe da Formação Permanente convidou para participar do encontro de guardiães e coordenadores de fraternidades deste ano Frei Clarêncio Neotti, ofm, da Província Imaculada Conceição do Brasil.
Frei Clarêncio iniciou sua reflexão com uma afirmação enfática: “Sem o Capítulo Local não existe vida fraterna nem vida religiosa. Quem não consegue se comunicar não é capaz de um projeto de vida”. O Capítulo, então, está intimamente ligado ao tema da comunicação. Exis-tem três níveis de comunicação: a interpessoal, que é realizada entre dois indivíduos; a grupal; e a social (meios de comunicação social).
O processo comunicativo possui alguns elementos fundamentais. Um deles é o autoco-nhecimento e, o outro, o conhecimento do código usado para a comunicação. Para o frade o lugar de aprendizado do “código franciscano” é o noviciado. Faz-se importante notar que a palavra ‘comunicação’ possui a mesma origem latina de ‘comunhão’, que é o verbo comunicatio. Por isso, toda comunicação pressupõe um acolhimento e uma compreensão mútua. Somente nestes moldes o diálogo se faz frutuoso e gerador de vida. O aprendizado do código (falar a mesma língua) e a disposição interna são essenciais para as relações fraternas.
Com o que foi dito até aqui fica evidente que uma boa comunicação é imprescindível para o Capítulo Local, pois o mesmo é um momento de mútuo conhecimento e de assumir a co-responsabilidade. Por isso deve ser celebrado com serenidade, sinceridade e seriedade. Livre de preocupações que possam prejudicar o canal comunicativo.
A partir destas considerações, os frades participantes reuniram-se em grupo a fim de e-lencar as conseqüências do descuido para com o Capítulo Local. Concluíram que, em uma fra-ternidade onde o Capítulo Local não funciona, os frades podem simplesmente se autogerir sem se incomodar com a caminhada da fraternidade. Ou podem cair em um isolamento/solidão; o individualismo será acentuado e tudo isso acarretará em uma presença anônima do frade no seio da fraternidade, ou o colocará em uma vida periférica. Alguém que vive assim certamente procu-rará compensações e a fraternidade acabará enfraquecida. Nesta situação a fraternidade não será capaz de proporcionar um clima de confiança entre os frades que, com certeza, acabarão acentu-ando demasiadamente os relacionamentos fora dela. Com esse perfil a fraternidade acabará tendo de lidar com mentiras e ambigüidades. O desconhecimento da vida do outro será geral e o canal de comunicação dos bens espirituais de cada um se fechará. Esse resultado assustador é fruto de uma atitude displicente em relação ao Capítulo Local.
Em contrapartida uma fraternidade diligente para com o Capítulo Local partilhará com muita facilidade os bens culturais de cada irmão, os bens que o Espírito Santo concede a cada um e a Missão que é determinada e assumida por todos. Os serviços de animação da fraternidade; correção fraterna, que pressupõe confiança mútua e os diversos trabalhos previstos na manuten-ção da casa e da vida dos frades serão partilhados em um clima de colaboração.
A dimensão espiritual de uma fraternidade deve sempre ser cultivada e conservada. Um dos meios para isso, e que atualmente está em desuso, é a direção espiritual. Além de acompa-nhar o crescimento espiritual, ela pode, inclusive, ajudar os frades que vivem sós e isolados a superarem esse problema e a reencontrar o gozo do convívio fraterno. A direção espiritual apare-ce aqui fazendo um contraponto com as tendências psicológicas que acentuam muito a auto-suficiência. É preciso ter sempre diante dos olhos a dimensão da complementaridade nas rela-ções da fraternidade. Um irmão que ajuda o outro no cuidado da sua vocação.
Na manhã do dia 10, os frades se reuniram novamente. Depois de uma oração cantada em tons, semitons e “quase” tons, fr. Clarêncio iniciou a reflexão falando sobre o tema “Projeto”. O Projeto pessoal é condição sine qua non para a realização do Capítulo Local. A palavra projeto vem do verbo latino projicere que significa “lançar para frente”, mas também significa “jogar fora”. Portanto um bom projeto deve levar em consideração aonde se quer chegar sem se jogar fora o essencial. É preciso que o sujeito saiba quem ele é de fato e o que quer ser. Não existe caminho para quem não sabe aonde vai. Portanto, se alguém tem um projeto de vida significa que ele sabe quem é; quem quer ser; e o que Deus quer dele. Isso porque chegará um momento em que o projeto da fraternidade entrará em conflito com as vontades pessoais e, tendo em vista a vontade de Deus e o desejo de ser o que Deus quer, será mais fácil assumir o projeto fraterno no projeto pessoal.
Sem Espírito de Oração não há projeto. A oração, nas suas diversas modalidades, é o sus-tentáculo do mesmo, tais como: oração da liturgia das horas, oração Eucarística; retiros sema-nais, mensais e anuais; atenção às festas franciscanas e à Palavra de Deus.
O projeto de vida de um frade está acima dos trabalhos que ele realiza. Portanto, o horá-rio da casa deve ser considerado. É preciso ter horário para levantar-se e para deitar-se, para co-mer, para rezar, para trabalhar. O horário é sagrado. O recreio fraterno é sagrado. As férias são sagradas. O projeto impede a dispersão e o conflito de agendas, pois ninguém deixa de lado aqui-lo que é melhor pelo pior. Ninguém se preocupa com compromissos que o afastam do convívio fraterno, sendo que este é parte fundamental do seu projeto de vida. O estudo deve ser uma cons-tante no projeto. Saber quais livros ler e estudar durante o ano é algo realmente importante. E, por fim, estreitar os laços com a Família Franciscana ampliará o projeto e renovará sempre o vigor na sua realização.
Alguns temas constituem o Leitmotiv do Capítulo Local e não podem ser deixados de lado. São eles: a minoridade, pobreza e solidariedade; a evangelização e a formação. Tais temas obrigam os Irmãos a se proporem alguns questionamentos que indicam o nível de compromisso com o projeto de vida, por exemplo, como os frades se apresentam ao povo? Há sinais do projeto de vida assumido na maneira de se relacionar com as pessoas? Qual a relação com o tema da Justiça, Paz e Integridade da Criação? Os frades interagem com a realidade social circundante? Promovem a não-violência? Pregam a Paz e o respeito? Falam da preservação da vida? Como usam o dinheiro? Ajudam os mais necessitados? Que tipo de leitura fazem? Como usam os mei-os de comunicação (televisão, internet...)? A cozinha faz parte do projeto de vida? Essa última questão parece banal, mas indica algo realmente sério, pois a cozinha pode se tornar um lugar gerador de conflitos para uma fraternidade. Por isso, é importante não fazer da cozinheira uma confidente dos problemas da fraternidade. Cozinha não é lugar para conversas e intromissões. A cozinheira deve ser orientada para evitar o desperdício. Deve ser tratada como uma colaboradora, não como escrava, assim como os outros funcionários da casa.
A evangelização está muito ligada ao relacionamento dos frades com as pessoas. A evan-gelização deve permear as atitudes do frade. O frade é chamado a ser um ministro da escuta, pois se deixa de ouvir deixa de ser frade. A atenção e a diligência na administração dos sacramentos, a maneira acolhedora de tratar os doentes, o cuidado na preparação das homilias, o cuidado com o programa paroquial e diocesano de evangelização, a atitude missionária. Tudo isso fala do Pro-jeto de Vida dos frades e deve sempre ser avaliado e refletido nos capítulos locais.
O Capítulo Local
Alguns pressupostos:
1- Abertura para Deus. O Capítulo é um encontro espiritual, um momento do Espírito Santo. Por isso deve sempre ser iniciado com uma oração que corresponda ao tema que será tratado.
2- Abertura para o outro. Disposição em superar as dificuldades geradas pelas diferenças de ida-de, etnia e cultura social, teológica ou ideológica. O outro deve sempre ser considerado como pessoa, única, original e irreptível.
3- Sem o acolhimento do outro como ele de fato é e não como se gostaria que ele fosse não há diálogo (Cor 19,23). Diálogo não é discussão; é abrir-se ao outro.
Estrutura:
1- As datas devem ser marcadas com antecedência para garantir a precedência em relação às ou-tras.
2- Deve-se elaborar uma pauta prévia.
3- Pôr à disposição de todos, com antecedência, a pauta e os subsídios.
4- Reunir-se em um lugar agradável.
5- Ter no mínimo uma duração de 01h30min.
6- Deve ser celebrado ao menos quatro vezes por ano, levando sempre em consideração datas especiais como Páscoa, São Francisco, Advento etc.
7- Ter sempre um livro de atas.
8- Começar com uma oração em sintonia com o tema.
9- Deve-se ler a ata anterior.
10- Apresentar as prioridades.
11- Sempre refletir sobre a fidelidade ao projeto de vida.
12- Falar da economia da casa.
13- Estabelecer os compromissos que os frades podem assumir fora do programa fraterno, (cur-sos, palestras etc.) O frade deve apresentar ao capítulo a proposta do compromisso que pre-tende assumir.
14- É uma celebração privada. Por isso deve-se evitar as interrupções de pessoas alheias à frater-nidade.
As dificuldades que o Capítulo deve enfrentar
Prioridade da ação sobre a contemplação.
1- Prioridade da Pastoral e da vida profissional sobre a vida religiosa em fraternidade. Às vezes se é mais padre e menos frade, ou mais professor e menos frade, e assim por diante.
2- Desencanto ou desânimo em relação à vida consagrada.
3- A rotulação. Um frade pode deixar de ser considerado como pessoa e passa a ser identificado por uma característica ou por uma atitude sua.
4- Medo de se abrir. Esse medo pode ser fruto de um clima de desconfiança. A vida do frade é sagrada e não pode ser motivo de comentário, fofocas ou piadas posteriores. Isso acaba com a confiança em uma fraternidade.
5- Medo de revanche.
6- Individualismo.
7- Autoritarismo.
Como se pode notar, o Capítulo Local está no centro do processo de dinamização da vida fraterna. Quanto melhor for o Capítulo, mais amadurecida e mais coesa será a fraternidade. A preparação deve ser feita com cuidado e carinho, deve-se evitar as improvisações. A qualidade da preparação determina a qualidade da realização.
Sempre há tempo para mudar e para crescer. Portanto, que a reflexão feita nestes dias possa reanimar as fraternidades onde o capítulo ainda não funciona muito bem e encorajar as que já apresentam as características de um bom capítulo. Enfim, que todos se sintam motivados a continuar a caminhada no processo de comunicação/comunhão que pode transformar as fraterni-dades em sinais escatológicos do Reino que está por vir. Amém!
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